Jaqueline chora

Quando cheguei em casa, Jaqueline estava sentada à mesa de jantar. Debruçada sobre ela, chorava num prato de pão com molho. As lágrimas, em abundância, banhavam o pão, encharcavam-no. Fui direto para meu quarto.

Mais tarde, ao retornar à cozinha, a fim de procurar algo para comer – o pão com molho molhado havia me despertado o apetite, por mais estranho que pareça -, Jaqueline ainda chorava. Desta vez, à pia, lavando obsessivamente aquele prato. O pão, que desperdício, jazia na lixeira.

No dia seguinte, Jaqueline fitava a janela, segurando uma torrada perto da boca, uma lágrima furtiva descendo do olho esquerdo. Ofereci fazer-lhe um café e ela desaguou mais uma vez.

Jaqueline chorava noite e dia, dia e noite. Não dizia palavra, não fungava, não gemia, só vertia lágrimas sem parar. Preocupei-me com sua hidratação e, assim, antes de sair para o trabalho, deixei ao seu lado um copo de água fresca. Ela me olhou e chorou mais um pouco.

Já fazia uma semana que a via chorando. Fiquei intrigado: será que ela chorava o tempo todo ou somente diante de um público, no caso, eu? Será que chorava ao dormir?

***

– É sério, isso?

– O que?

– Sua irmã estava a chorar fazia uma semana e você estava intrigado com tudo, menos com o motivo disso?

– O motivo?…

– Você não perguntou? Não disse coisa alguma? Não fez nada além de olhá-la a chorar?

– Não a olhei chorar. De fato, me retirei de cena aos primeiros sinais de lágrimas…

– Canalha!

***

Naquela noite, diante de tal incentivo, retornei ao apartamento disposto a desvendar o mistério. Jaqueline estava sentada diante da TV desligada. Desta vez, seu rosto estava completamente seco. E impassível.

Arrisquei:

– Irmã, o que anda acontecendo com você?

Ela fitou-me com ar de tremenda indignação. Eu sabia que deveria ter me mantido calado. Boa coisa não sairia disso.

– Não notou nada, irmão?

Meu cérebro gritou: armadilha! Não havia resposta certa para essa pergunta!

– Notei que anda triste – tateei.

– Hm.

“Hm”. Somente isso. Sem reticências e sem um eme a mais.

– Se estiver com vontade de conversar… – me esquivei.

Ela se voltou para a TV. Não havia nada ali para mim, além de perigo. Refugiei-me no meu quarto. Até sentir fome.

Saí do quarto disposto a evitar Jaqueline a qualquer preço. Não estava disposto a tolerar “hms” e acusações silenciosas. Preferia minha irmã carpideira.

Ao chegar na cozinha, notei que a vasilha de comida do Napoleão estava vazia. Será que Jaqueline estava tão mal que andara se esquecendo de alimentar o gato? Aliás, onde estava o gato?

Antes que me desse conta, estava andando pela casa, olhando para todo lado, mexendo em cortinas, batendo latinha e fazendo psiu, psiu, psiu.

– Ele não está mais entre nós.

Ela disse isso com uma voz tão calma e suave que me assustou muito mais do que se tivesse gritado. Acho que eu fui quem gritou. Pus a mão sobre o coração, esperando que se acalmasse novamente e, recuperado, consegui, enfim, perguntar:

– Não?

Se olhares fuzilassem, eu estaria morto e cremado. Cheguei a encolher-me, na esperança de conseguir desviar-me dos tiros.

– Quinta passada. Você deixou a porta da sala aberta ao atender ao carteiro. Lembra-se?

Não, não me lembrava, mas anuí, mesmo assim. Parecia a coisa certa a se fazer.

– Por causa desse seu descuido – ela continuou -, Napoleão escapuliu…

Minha boca fez um “oh”, mas não emitiu nenhum ruído. Então, era essa a razão das lágrimas…

– … E morreu atropelado.

Minha irmã pareceu realmente feliz com meu desconforto. Empolgada com minha reação, prosseguiu:

– Enquanto você abria sua caixa de inutilidades compradas pela internet, meu gato, meu amigo, meu companheiro durante 13 anos era esmagado na rua. E você nem notou que ele não se aproximou para averiguar suas compras. Aliás…

Mais uma pausa dramática.

– … Aliás, demorou uma semana para perceber a ausência de Napoleão nesta casa.

Uma lágrima saltou do meu olho. Depois, outras vieram. Não consegui emitir qualquer som, ruído ou resmungo. Somente lágrimas, em profusão, banhando meu rosto.

***

– Lágrimas de crocodilo!

– Como?

– É isso mesmo, Jardel! Você é o babaca mais insensível que eu conheço. Estou completamente indignada. Embasbacada!

– Thaís…

– Velho… Sua irmã passa uma semana chorando, mas você nem se preocupa em saber o motivo. E, aliás, o motivo estava bem na sua casa, a bem dizer, na sua cara. Você não notou a ausência do gato durante uma semana. UMA-SE-MA-NA!

– A choradeira de Jaqueline me desconcertou…

– Não justifica.

– Não… O que eu faço, agora?

Ela bufou.

***

Na volta para casa, ainda arrasado por toda a série de erros, eu chorava. Tanto, que parei o carro, na primeira vaga que encontrei, para tentar retomar o controle antes de causar qualquer outro transtorno ou ser responsável por mais algum atropelamento.

Ao abrir a janela, para deixar um pouco de ar entrar, ouvi um miado. Intrigado, olhei em todas as direções, enquanto baixava ainda mais a janela, a fim de captar melhor o som. De repente, o protagonista dos miados saltou, no lado do carona, para dentro do carro.

– Napoleão?

Antes mesmo de pensar, eu já estava subindo as janelas para evitar que ele fugisse novamente. Mas se fosse um fantasma…

Toquei o gato, que me olhava tão surpreso quanto eu o olhava, e confirmei que era real.

– Napoleão! Por onde andaste, menino levado?!

– Miau.

– Está sujo, meu amigo. E deve estar faminto.

– Miau.

Pensei em todas as possibilidades, em tudo o que eu poderia fazer, em quais deveriam ser os primeiros passos. E, como estávamos perto da petshop, resolvi levá-lo lá, para exames e um lanche.

Cheguei em casa carregando uma nova caixa de transporte. Dentro dela, Napoleão dormia, alimentado e feliz. Jaqueline estava na sala e fez questão de não me olhar. Não me importei.

Depositei a caixa no chão, abri a portinha e fui para a cozinha. Lá, enchi as vasilhas de água e comida do gato. Fui ao banheiro abastecer a caixa de areia.

Minha irmã, parada à porta, me olhava, ainda mais indignada do que das outras vezes. Disse, baixinho, como andava sendo seu costume:

– Não pense que trazer outro gato para esta casa me fará te perdoar.

– Não penso.

– Não quero outro gato…

– Você não merece outro gato – interrompi o possível monólogo de lamentação que ela tencionava começar. – Aliás, você não merece nem mesmo este.

O olhar de Jaqueline flamejava, entre indignado e intrigado. Continuei:

– Nem deu uma olhada dentro da caixa?

Ela cruzou os braços.

– Ah, aí vem ele.

Napoleão cruzou a porta, entrando no banheiro para inspecionar a caixa de areia, limpa e quase perfumada. Enquanto ele jogava areia nova para todo lado, vi o queixo de Jaqueline cair. Dei-lhe as costas e fui para meu quarto.

Como se tivesse total entendimento de todos os fatos, Napoleão ignorava Jaqueline, mas me seguia por toda a casa. Comia comigo, dormia comigo, se divertia comigo, me recebia à porta quando eu chegava do trabalho. Depois de treze anos, ele era meu gato. Minha irmã não dizia palavra.

***

– Vocês têm seríssimos problemas de comunicação, meu amigo.

– Por quê?

– Oras… O gato de sua irmã reaparece depois de uma semana de “atropelado e morto” e ela não fala nada. Você não fala nada?

– E o que eu haveria de falar? Que ela foi uma cretina, com todo aquele drama, que só serviu para encobrir a verdade?

– E qual é a verdade?

– Que ela se esqueceu dele. Que levou o coitadinho ao petshop para limpeza dental e o esqueceu. Como não atende telefone, não tiveram como lembrá-la ou avisá-la e Napoleão ficou lá, na gaiolinha, estressado, por dias…

– E como ele foi parar na rua?

– Desespero. Conseguiu destravar a gaiola e fugiu. Tivemos muita sorte dele me encontrar. Muita sorte… Ele realmente poderia estar morto, agora.

– Ela inventou a história do correio?

– Não sei dizer… Talvez aquela destrambelhada realmente acreditasse nisso…

– E como fica, agora?

– Jaqueline chora. Ela perdeu seu gato, seu amigo, seu companheiro durante 13 anos. Perdeu para mim – sorri, dando de ombros.

Jaqueline chora