O quadro

O dia estava bem frio e seco. Ideal para colocar aquele pôster gigante numa moldura. Nada de papel enrugado pela umidade. Laura estava bem feliz com isso.

Levou seu pôster A1, devida e cuidadosamente enrolado num tubo de papel, até a loja de molduras, onde Mikko já a esperava.

– Pensei que não viria mais.

– Estava esperando o tempo firmar. Quero que fique perfeito.

– Vai ficar. Tem certeza que quer por vidro nisso?

– Tenho. Antirreflexo e temperado, por favor.

– Menina, isso vai ficar bem caro.

Laura enrubesceu ao ser chamada de menina. Estava com trinta e dois anos, mas era assim mesmo, como uma menina, que se sentia naquele momento. Mikko assumiu que suas bochechas ficaram rosadas pelo comentário sobre o preço e também ficou sem graça:

– O dinheiro é seu…

– É… Mikko, que dia posso vir pegar?

– Entrego em sua casa depois de amanhã, pode ser? É grande e vai ficar pesado demais para você levar na bicicleta!

– Ok – ela sorriu sem jeito. – Vou esperar.

***

Dois dias depois, Mikko tocava sua campainha.

– Pronto, menina, seu quadro gigante. Quer que eu ajude a pendurar?

– Não, obrigada. Já tenho tudo ajeitado.

– Se mal lhe pergunte, quem é o cara? Se é que é um cara, com tanta maquiagem nos olhos…

– Ele é ator. E cantor.

– Nunca vi nem menos enfeitado.

– Ele atua em óperas.

– Ah, entendi. É coisa de gente rica.

– Eu não sou rica – disse Laura, entregando o cheque com valor substancioso a Mikko. Ele riu e, meio ofendido, foi embora, resmungando.

Ele tinha razão: grande demais, pesado demais. Mas valia o esforço. Levou o embrulho para seu quarto, com bastante dificuldade, e, com a ajuda de Anne, sua amiga que a aguardava sentada na cama, desfez o embrulho e, antes de pendurar o quadro, parou para admirá-lo.

– Ele é lindo…

– Acho muito feminino. Se não fosse a barbinha, eu teria certeza de se tratar de uma mulher. Uma linda mulher.

– E mesmo assim, ou por causa disso, ele é lindo. Dos homens mais lindos que já vi.

– Se você se apaixonasse pelos homens reais do mesmo jeito que ama os impossíveis, você seria uma feliz mãe de família.

– Anne, prefiro não.

– Ok, ok… Vamos colocar esse rapazinho na sua parede.

Com bastante esforço conjunto, Eikki Heikkinen, enfim, foi posto em seu lugar de destaque, em frente à cama de Laura.

– Pronto. Na parede, ficou realmente impressionante. Está em tamanho natural?

– Sim.

Os olhos de Laura brilhavam intensamente. Anne, ao perceber, tentou conter o riso, mas falhou.

– O que foi, Anne?

– Você vai chorar! – Ela ria copiosamente, agora. – O cara nem sabe que você existe e aí está você, mulher feita, se debulhando em lágrimas diante de um cantorzinho de ópera maquiado e pelado demais para ser levado a sério.

– Obrigada pela sua ajuda e pelas palavras tão gentis, Anne. Pode continuar a rir em sua casa, agora.

– Ei! Não quis ofender.

– Não ofendeu.

Não, mesmo, mas Laura queria ficar sozinha com Eikki.

***

Laura passou a tarde deitada na cama olhando o quadro. Não pensava em absolutamente nada de tão absorvida. Admirava os olhos maquiados que todos a sua volta se compraziam em criticar, mas que deixava as expressões de Eikki mais intensas e belas. Os olhos eram cor de musgo, mas, pintados, pareciam dourados. A barba não tão rala, mas tão loura que quase não se via. O torso desnudo, magro e quase infantil, com a pele leitosa, os pelos esparsos, o umbigo fundo. O volume nas calças.

– Tão lindo… Nem precisava ser tão talentoso…

– Você me deixa realmente constrangido, assim.

– Por que? Você sabe que é deslumbrante. Não estou contando nenhuma novidade.

– Eu sei, mas a música é o que realmente me motiva. Ser talentoso é meu maior prazer e minha maior conquista e do jeito que você fala, do jeito que você me olha, me sinto desvalorizado.

– Desculpe… Você está certo. Mas é que… Fiquei entusiasmada.

Ele sorriu, alisando a barba em volta da boca. Ela entrou em êxtase.

– Mas você provoca… Ok. Vou ouvir música.

Ela ligou o iPod vermelho que guardava todas as áreas de ópera cantadas por Eikki ao seu fone de ouvidos Bose. Começou por “Solitude”, sua favorita. A voz soava tão nítida e entrava tão profundamente em seus ouvidos que Laura vibrava.

– Você é bom demais para ser de verdade.

Na parede, Eikki sorria.

***

– Sabe, Laura… Enquanto você estava aí, dormindo, eu estive pensando… É muito estranho imaginar que mulheres desconhecidas e, talvez, alguns homens, fantasiam a meu respeito, assim, como você. É simplesmente bizarro. Eu, talvez não em proporções tão grandes quanto aqui, no seu quarto, posso estar espalhado por centenas, milhares de casas, sendo admirado, desejado, elogiado. Posso estar trocando juras de amor, me relacionando com pessoas que jamais irei conhecer. É… Angustiante pra mim, sabe?

– É angustiante para você ser amado?

– Eu sou amado? Eu, minha pessoa, meu ser? Você realmente me ama? Ou apenas ama aquilo que sua fantasia criou a meu respeito?

– Desculpe, Eikki, mas eu realmente estou com sono e vou voltar a dormir. Essa é uma conversa muito complexa para as três da madrugada. Eu só me levantei para beber água.

– Sim, claro. Eu só queria entender…

– Amanhã, ok?

Ao amanhecer, Laura, ainda deitada, olhava para Eikki, tão lindo, tão pouco vestido, tão absolutamente delicioso. Mas a expressão em seu rosto estava diferente. Ele parecia… Irritado?… Magoado?

– Preciso fazer terapia. Conversar com o retrato é perfeitamente explicável. Notar mudança de humor no retrato já é ir longe demais…

Levantou-se, sonolenta, abriu as cortinas com um puxão e, ao voltar os olhos para o quadro, Eikki estava, surpreendentemente, de costas para ela.

– Oi?

Ela piscou repetidamente, esfregou os olhos, mas a tatuagem de dragão no ombro esquerdo de Eikki a encarava.

– Mas… Como assim?

Laura respirou fundo e arriscou:

– Eikki? Por que você está de costas? E como fez isso?

– Você me vê como um pedaço de carne…

– Nem tanto – ela suspirou. – Há pouca carne aí e eu sou vegana.

– Você me entendeu e seu deboche não melhora a situação.

– É, você tem razão, mas não sobre minha forma de te ver.

– E como você me vê?

– Dá para me olhar. Sua bundinha está roubando minha atenção…

Do quadro, Eikki grunhiu, mas se virou, de braços cruzados e não mais na “pose de Jesus” que se encontrava originalmente.

– Melhor assim. Bem… Eu te vejo como um lindo nerd, terrivelmente talentoso, amigável, gentil, cheio de manias estranhas, que gosta de bichos, que gosta das mesmas coisas que eu, mas não gosta de mim.

Eikki corou.

– Eu gosto de você, Laura.

– Não, Eikki, você sequer me conhece. Eu ser louca o suficiente para ter uma conversa dessas com seu retrato na parede não faz com que você goste de mim. É só ilusão.

***

À noite, ao chegar ao hospital para cumprir seu turno, Laura se deparou com uma multidão de repórteres e curiosos em frente à portaria. “Algum famoso deu entrada”, pensou. E ela acertou em cheio.

Assim que pôs os pés dentro do hospital, Anne apareceu, esbaforida e agitada, chamando por Laura.

– Onde você estava? Te liguei a tarde toda?

– Qual é a emergência?

– Eikki Heikkinen está aqui!!

Laura parou, sem ação, sem ar. “Eikki, internado?”

– Não é nada grave, Laura. Ele está com uns cortes feios, que já foram suturados. Venha!

Venha vê-lo!

– Preciso me trocar! – Disse Laura, indo em direção ao vestiário. – Mas o que foi que aconteceu com ele, Anne?

– Parece que estava em cativeiro ou algo assim. Teve que quebrar um vidro com as próprias mãos para poder sair de onde estava e acabou bem machucado. Ninguém entendeu direito, ele estava meio que em choque quando chegou.

– Quem o prenderia?

– Alguma fã louca, feito você…

Laura a fuzilou com os olhos.

– Ei, desculpa. Nada pessoal… Mas você não se comporta como uma pessoa normal em relação a Eikki Heikkinen.

– É, eu sei… Quem o trouxe para cá?

– Alguém chamou a ambulância quando viu um homem sem camisa sangrando pelas ruas.

– Isso tudo é muito bizarro.

– É, sim. Pronta? Vamos!

As duas foram em silêncio até o terceiro andar. Pararam em frente ao quarto 317.

– Bem, ele está ali. Entre e ofereça seus cuidados.

Laura respirou fundo e bateu de leve na porta. Em seguida, entrou.

Eikki a encarou, Laura enrubesceu, mas manteve o ar profissional, por mais difícil que fosse.

– O senhor precisa de alguma coisa?

– Sim. Preciso.

Ela aguardou, mas ele não disse mais nada.

– E do que o senhor precisa? Se eu puder ajudá-lo…

– Pode – e ele se calou novamente, sem tirar os olhos dos dela.

– Se o senhor disser…

– Eu gosto de você.

Laura se aproximou de Eikki, tão frágil e vulnerável naquela cama, com ataduras nas mãos e o cabelo, sempre tão sedoso, todo desgrenhado. Seus olhos estavam tão fundos, a maquiagem borrada. Ela ficou tão próxima dele que pode sentir seu cheiro. Inalou-o profundamente, em silêncio, esperando não sabia bem o quê.

– Nós nos conhecemos, hmmm, enfermeira Virtanen? – Ele perguntou, pegando-lhe a mão.

– Eu conheço o senhor. Quero dizer… Sou fã do seu trabalho.

– Gosta de ópera?

– Muito. E o senhor, na minha opinião, é o melhor barítono deste país.

– Fico feliz em ouvir isso.

Eikki sorriu lindamente e beijou-lhe a mão, agora suada.

– Posso perguntar o que lhe aconteceu, senhor?

– Me chame de Eikki. E, sim, pode perguntar, mas eu não saberia lhe responder. Tudo o que eu sei, tudo o que me lembro, é de estar batendo numa janela até ela se quebrar. E vim parar aqui…

– Alguém te prendeu? Onde você estava?

Ele respondeu com um movimento de ombros.

– Não se lembra mesmo de nada?

– Nada.

Neste momento, a porta se abriu e uma belíssima morena com peitos enormes e empinados entrou no quarto, com os braços estendidos em direção a Eikki.

– Sophie!

– Eikki! O que foi que aconteceu? Quase morri de susto quando recebi o telefonema daqui do hospital! Você está bem?

– Sim, só uns cortes. Estou apenas em observação, mas não sei exatamente porquê.

– Acredito que estejam esperando um acompanhante para te dar alta, senhor – disse Laura, constrangidíssima e enciumada. Quem era aquela mulher, afinal?

– Já passamos da fase de “senhor”, enfermeira – ele lhe sorriu. – E se era somente isso, posso ir embora, agora que minha esposa chegou?

– Esposa?

– Sophie, esta é a enfermeira Virtanen, que esteve cuidando de mim.

– Laura…

– Laura – ele completou as apresentações -, esta é Sophie, minha esposa.

– Não sabia que era casado… Oh, desculpe… Não é da minha conta…

– Ele não conta para ninguém sobre mim, Laura. Acho que tem vergonha – Sophie deu-lhes uma piscadela.

– De quê? Você é divina – respondeu-lhe Laura.

– Exatamente disso!

Laura saiu do quarto com a promessa de que encontraria o médico responsável para providenciar a alta, mas, na verdade, só queria chorar. Anne a esperava na porta.

– Quem é a bonitona?

– A esposa…

***

Laura passou todo o seu turno entorpecida. Quando foi para casa, ainda não sabia o que sentir ou pensar. “Casado? E eu nunca soube?”.

Entrou, subiu para o quarto e se jogou na cama. Chorou por horas, até começar a sufocar em catarro. Ao caminhar até o banheiro para, enfim, um banho e uma assoada no nariz, pisou num caco de vidro, que cortou-lhe a sola do pé.

– Droga! Só me faltava essa – fungou.

E só então notou que o pôster de Eikki Heikkinen estava ao chão, com o vidro todo estilhaçado.

– Maldito Mikko! Eu paguei por vidro temperado!

Enquanto cuidava do corte, pensava em toda a ópera que ouviu, nos livros que leu, nos filmes que assistiu só porque Eikki Heikkinen tinha algo a ver com eles. Sua vida girou em torno deste mito por tanto tempo que se sentia perdida, agora. Lembrou-se dele no leito de hospital, segurando sua mão e dizendo que gostava dela, mas lembrou-se de Sophie e chorou mais um pouco. Suas ilusões e esperanças jaziam como o quadro gigantesco: em pedaços cortantes.

– Até parece que eu já tive alguma chance…

***

No dia seguinte, ao acordar com uma ressaca de choro danada, Laura ligou para Mikko, dando-lhe uma bronca daquelas, descarregando no coitado toda a sua ira. Em pouco tempo, Mikko estava em sua porta com o cheque, um pedido de desculpas e a promessa de que refaria o quadro, agora, dentro das especificações corretas.

– Limpe aqueles cacos todos do meu carpete e estamos quites, Mikko. E fique com o cheque.

Uma hora depois, Mikko surgiu com algum pequenos cortes nas mãos e uma saco cheio de jornal e caquinhos. Reiterou o pedido de desculpas e perguntou:

– Menina Laura, onde foi parar o mocinho maquiado?

– No hospital… – Ela respondeu, sem pensar.

– Como?

– Do que você está falando, Mikko?

– Do pôster. Tinha vidro e moldura para todo lado, mas nem sinal da foto. Nada do cara. Só esse post it colado no paspatur.

Ele a entregou o papelzinho amarelo, onde se lia: “Eu gosto de você, garota. Reconheço seu valor, mas me manter real é fundamental. Amor. E.H.”

Sem uma explicação para isso, Laura agradeceu a Mikko pelo serviço e entrou em casa, batendo a porta num estrondo. Subiu ao sótão, revirou caixas até encontrar um CD do Slayer, da sua fase headbanger, a última, pelo que se lembrava, em que foi ela mesma. Tocou o CD num volume absurdamente alto e jurou jamais ouviu ópera novamente.

O quadro